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segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Um dia de Silêncio



Na ilha de São Miguel, no arquipélago dos Açores, existe um belíssimo lugar com duas lagoas unidas por um istmo. Uma é verde, e a outra, azul. Chama-se Sete Cidades a esse lugar. Numa das lagoas há um promontório que leva o nome de Ponta do Silêncio. Para lá vão os turistas para simplesmente não escutarem nada. A grande ventura é abrir os braços à aragem, fechar os olhos e escutar apenas o rumor da alma. Dá gosto vê-los em êxtase.

Não é por nada que isso acontece: vivemos uma cultura do ruído, do estrépito, dos tiros, das bombas e, 1 em especial, da constante metralha dos potentes aparelhos de som. Não basta escutar Miles Davis - a propósito, genial -, é preciso que os vizinhos saibam que gostamos de Miles Davis, é preciso que a cidade, que o bairro, que o universo saibam. Chegando mais para o nosso tempo, a estética do bate-estaca transformou-nos em metrônomos ambulantes. Não há melodia, há apenas ritmo em decibéis ferozes. Isto é: falta um componente essencial ao que chamamos música. Dentro dos carros o som é potencializado, coisa de que nos damos conta nas sinaleiras. Os motoristas, autômatos, têm os olhos vidrados e espumam pela boca. O Chaplin de Tempos Modernos já não seria aquele operário que depois de um dia de trabalho sai parafusando todos os botões que encontra pela frente. Com certeza sairia à rua com dois tampões nos ouvidos. Talvez por isso estejamos perdendo a capacidade de ouvir os outros, e na secular arte da conversação o silêncio tornou-se moeda rara. São poucos os que ainda guardam a capacidade de escutar o que dizemos. Esquecendo-se de que o diálogo é a melhor forma de convivência, e que o diálogo pressupõe pausas criadoras, e que só ouvindo podemos responder, essa gente acelerada pensa somente naquilo que dirá em seguida que não será uma resposta, mas a continuação de seu longo monólogo. Eles podem conceber que têm esse defeito, mas para dizer isso levarão horas. E ainda esperam ser absolvidos. Nos dias de hoje, o doutor da Bergstrasse número 19, o doutor do charuto, o que pregou a cura pela palavra, escreveria um erudito artigo à Sociedade Científica de Viena, expondo as vantagens da cura pelo silêncio.

Assim, vamos lutar por um dia especial, semelhante ao dia dos pais, da sogra, do papagaio. Nessa data, que as pessoas deixem de falar, que emudeçam as buzinas, que as motos e os carros não circulem. Que o orador guarde seus discursos, que o corneteiro não toque a alvorada. Que as mães, por favor, não ralhem com os filhos. Que todo movimento cesse, lentamente cesse.

Então haverá uma pausa na engrenagem do universo.

E poderemos ouvir sobre nossas cabeças um tênue ruflar: serão as asas do anjo do silêncio sobrevoando, em majestosa graça, cidades e os campos serenados. Levará o indicador sobre os lábios unidos, e em sua boca um sorriso de paz.

Pasmos de tanto encanto, nunca mais seremos os mesmos.

Fonte: Luiz Antonio de Assis Brasil, ZERO HORA, 07/07/2002.
Músico americano, considerado o ícone de jazz nos anos 50.

Silenciem


Silenciem a mente, apenas ouçam os sons da natureza que estão em volta, a cantiga do rio, os insetos ao redor e a sua própria respiração. Silenciem o falar e se abram para o ouvir. Silenciem a mente.

Mesmo que pareça estar em um estado de meditação, a mente continua tagarelando. Prendam a sua atenção apenas a uma coisa, que pode ser a própria respiração ou a cantiga de um rio. Prestem atenção e se aprofundem no som que escolheram até o ponto em que este som os ajude a fazer a conexão com o aqui e o agora.

Se, mesmo assim, a sua mente insistir em tagarelar, fale com ela: “Eu estou no aqui e agora do som do rio. Conecte-me ao aqui e agora. A única verdade é o aqui e agora, o passado já foi, o futuro ainda não chegou”. Perceba se é fácil ou se é difícil e o quanto a sua mente interfere.

A mente é ardilosa, ela cria histórias e enredos, é como um peixe preso numa rede. Você nada mais é do que esse peixe se debatendo e se ferindo nas malhas da rede. Isso é a sua mente. Simplesmente, como peixe que você é, relaxe! Não se debata e nem se movimente, não sofra. Dessa forma, talvez, a malha da rede vá se relaxando e se abrindo, soltando o peixe, que volta ao oceano.

Assim tem sido a sua vida, como um peixe se debatendo, porque o peixe ainda não descobriu que as malhas da rede não existem, são criações da mente. Ao relaxar, o peixe volta ao oceano, mergulha e nada com imenso prazer de estar novamente no seu ambiente.

O oceano é a existência, é a vida, e você está na vida para viver, não para sofrer. A morte é o oposto da vida. Vida é plenitude, vida é prazer de respirar e de mergulhar na existência.

Para ter vida, é preciso estar inteiro em cada ato, desde o simples ato de respirar, de observar uma flor, o verde à sua volta, as estrelas no céu, o compartilhar com os amigos, o calor do fogo, o doce ou o salgado do alimento, é estar presente no aqui e agora. Aí sim, a meditação se torna uma extensão da própria vida.

Cada momento pode ser mágico, porque tudo é meditação, tudo é oportunidade de se conectar com o Universo. Por isso, é preciso treinar a mente. Quando falamos em meditar estamos falando em adestrar a mente.

A mente deve ser sua companheira, não sua inimiga. Quando a mente é companheira, ela não disputa espaço com a divindade que você é, ela respeita! A existência passa a ter uma estranha sensação de serenidade e paz que toma conta do seu coração, e você reconhece esse estado que não é mais tormento, desassossego, angústia, desespero ou dor, a mente se aliou ao seu próprio Eu Superior, à sua própria Divindade. Somente aí, sua Divindade começa a brilhar, começa a ocupar o seu verdadeiro lugar.

Você não está na Terra para simplesmente passar por ela, como uma formiga que passa a sua existência carregando uma folha pra lá e pra cá. Você não está na existência para isso. Está na existência para fazer desabrochar o seu melhor, o seu “ouro interno”, o seu “eu superior”. Você está aqui para cumprir a sua missão grandiosa ou pequena, a que reside no fundo da sua alma. O contato com a alma só se faz atingindo esse ponto de paz e serenidade.

Você está na existência para cumprir a sua missão, o seu aprendizado, ou a sua existência será apenas mais uma passagem por esse mundo. Não desperdice essa existência, use-a, mergulhe e aprofunde-se nela, e você se descobrirá como um ser de pura luz.

Você não será mais Maria ou José, já não será mais o que tem, porque o que você tem não é você. Você passa a ser o que você é: “luz e divindade em ação no meio do mundo.” Aí sim, você entende o velho preceito: “Eu não sou do mundo, eu estou no mundo. Eu estou no mundo para fazer brilhar a minha centelha divina”.

Caminhantes da Luz - Alma Celta

terça-feira, 8 de março de 2011

Hoje preciso - Heloisa Trad

 www.olhares.com/heloisacarrio

Hoje preciso
de recolhimento,
de solitude,
de paz
e quietude,
em silêncio.

Hoje preciso
ignorar o mundo a minha volta,
que chama aos gritos,
que exige,
que controla
e nos anula.

Hoje preciso
pensar, refletir,
encontrar o meu eu
tomar ciência de
desejos e sonhos
só meus.

Hoje não quero falar,
Não quero outros ouvir,
Quero mesmo é ser eu
Em silêncio, no silêncio
- plenitude do ser!

Cocais, outubro/2010
Heloisa Trad